Cirurgia de endometriose reduz a dor e melhora a qualidade de vida da paciente

Endometriose: estudos confirmam benefícios da cirurgia e encontram novo fármaco para tratamento

A endometriose ocorre quando o tecido endometrial, tecido que reveste internamente o útero, cresce fora da cavidade uterina, isto é, no peritônio, nos ligamentos uterinos, nos ovários, nas trompas, na bexiga, no intestino, e mais raramente em locais longe da pelve, como pulmões, mucosa nasal e cicatrizes cirúrgicas. Este tecido pode crescer sob a forma de placas superficiais, chamadas de implantes, em forma de áreas espessadas, chamadas de nódulos, ou em forma de cistos, chamados de endometriomas. Vários estudos e algumas novidades na área estão surgindo. Confira abaixo duas delas…

Cirurgia de endometriose reduz a dor e melhora a qualidade de vida da paciente

Pexels

 Estudo feito por médicos franceses, do CHU (Centre Hospitalier Universitaire) Clemont Ferrand, mostrou que a cirurgia de endometriose reduz não só a dor pélvica, como aquela sentida durante a relação sexual, além de melhorar a qualidade de vida das pacientes. Os pesquisadores avaliaram a dor sentida por mulheres com endometriose antes e depois da cirurgia laparoscópica. Além disso, analisaram as respostas que as pacientes deram em um questionário sobre qualidade de vida.

Resultados:

O resultado médio para dor caiu de 5,3, antes da cirurgia, para 2,6, seis meses após a intervenção, e para 2,3, três anos após a operação. A dor pélvica crônica caiu de 2,6 antes da intervenção para 1,4 após seis meses da cirurgia, e para 1,3 três anos após a operação. Já a dor durante a relação sexual caiu de 2,7 para apenas 1,1, seis meses após o procedimento. Número que permaneceu praticamente o mesmo três anos após a cirurgia: 1,2.

Os resultados foram animadores também para a qualidade de vida das mulheres no aspecto dor corporal. A melhora foi de 54,6 para 74,4, seis meses após a cirurgia. Já a melhora nas limitações físicas que a endometriose causava saltou de 63,3 para 81,9, seis meses após a cirurgia.

O mesmo ocorreu no quesito qualidade de vida, que aumentou de 66 para 75,6 seis meses após o procedimento. A melhoria nas limitações, devido a problemas emocionais, aumentou de 65,7 para 77,4 após o procedimento.  E o mais importante: os resultados não mudaram ao longo dos anos.

“A cirurgia exige do médico consultante um conhecimento abrangente do problema, pois pode atingir vários órgãos. Conhecida por alguns como uma ‘doença sem cura’, pois mesmo tratada pode reaparecer, a endometriose tem esta fama por receber de alguns profissionais um acompanhamento inadequado e insuficiente, principalmente nos casos de endometriose ovariana e endometriose infiltrativa profunda. Nesses casos é fundamental o acompanhamento de profissionais especializados em infertilidade e que tenham experiência em cirurgia pélvica para uma resolução satisfatória”, frisa o especialista em Medicina Reprodutiva Arnaldo Cambiaghi, diretor do Centro de Reprodução Humana do IPGO.

Vale lembrar que o IPGO realiza a videolaparoscopia, técnica cirúrgica minimamente invasiva feita com o auxílio de uma endocâmera no abdômen.

Mais uma esperança para a prevenção de lesões endometrióticas: ativador de autofagia rapamicina pode combater o problema 

Rapamicina

Uma pesquisa publicada recentemente na Biomed Research International e  realizada por pesquisadores dos departamentos de Obstetrícia, Ginecologia, Patologia e Genética de três hospitais em Changsha, na China, traz novas esperanças para mulheres que sofrem com a  endometriose.

Os autores realizaram um estudo para especificar o papel da autofagia (processo de limpeza e, principalmente, de “reciclagem” das células) na endometriose. Embora a função da autofagia seja bem conhecida no desenvolvimento de vários distúrbios, seu mecanismo em diferentes doenças não é o mesmo. Seu papel na endometriose, inclusive após a pesquisa, ainda não foi elucidado totalmente.

Os pesquisadores utilizaram no estudo a rapamicina, ou sirolimus. Produzida pela bactéria Streptomyces hygroscopicus, ela é usada, entre outras coisas, como imunossupressor, ou seja, suprime rejeição em receptores de transplante de órgãos e trata uma variedade de doenças inflamatórias e imunopatias. Também foi descoberto que a rapamicina pode retardar o envelhecimento em camundongos.

Para investigar o efeito da autofagia no crescimento, proliferação e capacidade de invasão das células endometriais, foram realizadas múltiplas experiências in vitro na linha celular endometriótica. Os pesquisadores primeiro tentaram suprimir a autofagia adicionando inibidores ou fragmento de interferência de RNA para direcionar o gene ATG5. Descobriram que esses dois agentes promovem significativamente a proliferação celular e a colonização de células endometriais, indicando o efeito de deterioração na autofagia.

Já para ativar o efeito autofágico das células endometriais, eles adicionaram rapamicina às linhas celulares endométricas e utilizaram técnicas de imunofluorescência. Os resultados mostraram que a rapamicina é significativamente eficaz na ativação da propriedade autofágica nas linhas celulares endométricas acima mencionadas.

Quando os pesquisadores examinaram as proteínas relacionadas à apoptose (morte celular) em tecidos de endometriose ovariana, encontraram níveis de proteína significativamente mais altos em comparação com as amostras de controle dos pacientes sem endometriose.

Os autores concluíram que o estudo comprova a função da autofagia na proliferação e invasividade das células endometrióticas. Esses resultados podem trazer novas técnicas e teorias para prevenção e tratamento da endometriose.

“Toda novidade positiva que surgir em relação aos tratamentos de endometriose tem de ser festejada”, comenta Cambiaghi.Ela é uma doença que deve ser cuidadosamente diagnosticada, tratada e acompanhada, caso contrário poderá levar a paciente a repetidas cirurgias, muitas vezes desnecessárias, além do prejuízo da sua fertilidade. Acredita-se hoje que uma das grandes dificuldades no seu tratamento é o tempo de demora para ser diagnosticada, de até sete anos, em média. Essa demora pode trazer prejuízos importantes à anatomia do aparelho reprodutivo, causando danos à fertilidade da mulher. Por isso, sempre que a hipótese diagnóstica for apresentada como uma alternativa, o aprofundamento da pesquisa para confirmação do diagnóstico e o tratamento deverão ser feitos por profissionais que tenham experiência nesta doença, caso contrário, tanto o momento como a maneira de intervir e tratar poderão ser inadequados”, completa.

Fontes: NCBI / Endonews

Arnaldo Schizzi Cambiaghi é diretor do Centro de Reprodução Humana do IPGO, ginecologista-obstetra especialista em medicina reprodutiva. Membro-titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica, da European Society of Human Reproductive Medicine. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de São Paulo e pós-graduado pela AAGL, Illinois, EUA em Advance Laparoscopic Surgery. Também é autor de diversos livros.

in the press comunicação – por Cármen Guaresemin

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